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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

03
Jan18

noite

 

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Noite velha, por sobre
A terra fria e nua,
A muda ondulação
Da escuridão flutua.
Onde a treva é mais densa
Há gestos doloridos
E vultos a chorar
Que perdem os sentidos.
Uma chuva miúda
E triste nos beirais
Põe murmúrios de dor,
Misteriosos ais…
De tudo a solidão
Extática dimana,
E cada cousa veste
Uma expressão humana…
E entre elas e o infinito
Há diálogos profundos.
Enche a noite sem fim
A ignota voz dos mundos…

 

Teixeira de Pascoaes

 

foto | Lisboa | dezembro'7
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

11
Nov17

sou nada, e quero ser

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...

Sou nada, e quero ser!

Quero ser tudo, e eu! Quero viver

A vida misteriosa...

Interrogo o silêncio e a tarde rumosa 

De sombras e segredos...

Contemplo comovido os astros e os penedos.

E fico a ouvir as fontes num eterno

Queixume que ergue a voz durante o Inverno!

...

 

Teixeira de Pascoaes

 

 

foto | Serra da estrela | março'17
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

31
Out17

o que é a felicidade

 

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Que é a Felicidade? É ver a gente,

Fora de nós, o Sonho que sonhou...

Abraça-lo e beijá-lo eternamente,

E com ele fugir n'um grande voo!

É tocar com as nãos Esperança;

E sentir o seu peso, e a gente ver

Que se curva sob ele e que se cansa

Até cair de rastros e morrer!

 

Teixeira de Pascoaes

 

foto | Atenas | agosto'17
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

26
Out17

sombra humana

 

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Quando passeio ao longo dos caminhos,

Batem asas de medo os passarinhos;

Escondem-se os repteis no tojo em flor.

Minha presença espalha um trágico pavor

Nas pobres criaturas

Que vivem neste mundo, assim como às escuras!

 

Avezinha fugindo ao ruído dos meus passos,

Se o que eu sino por ti, acaso, pressentisses,

Tu virias fazer o ninho nos meus braços...

Virias ter comigo, ó pedra, se me ouvisses!

 

Teixeira de Pascoaes

 

foto | Atenas | agosto'17
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

26
Out17

meu coração

 

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Da terra, uma semente pequenina

Abre ao sol, em sorrisos de verdura.

E o rubro raio aceso que fulmina,

Rasga o seio da nuvem que é ternura.

Ao longo da êrma e pálida colina,

Um doce fio de água anda à procura

De alguma rosa angélica e divina,

Abandonada e morta de secura

Meu forte coração também nasceu

Para criar cantando um novo céu.

Ninguém lhe entende a mística harmonia.

Lembra remota estrela desmaiada

Que mal se vê na abóbada azulada,

Mas para um outro mundo, é grande dia.

 

Teixeira de Pascoaes

foto| Cala Predonga - Menorca | agosto'17
texto | A Poesia de Teixeira de Pascoaes de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

01
Ago17

antigos e mortos castanheiros

Alagoa_março17_02

 

...

Ó antigos e mortos castanheiros,

Ainda vos vejo em formas espectrais...

Souto de sombra e tristes nevoeiros,

Que surges ao luar, e rumorejas!....

Ó árvores a pairar longinquamente,

Abrindo, no ar, os ramos com folhagem;

Ermos fantasmas vegetais que anda

Encheis de negros vultos a paisagem...

Troncos de névoa, aos ventos, ondulando,

Que me dão fruto e flor e reverdecem

E penetram o chão, n'ele sugando

Águas de sombra e seivas de crepúsculo.

Ó ramagens fantásticas, que um vento

De mistério perturba! Ó folhas secas

Que voais pelo escuro Firmamento

E sois alma da noite e luzes tristes...

...

 

Teixeira de Pascoaes

 

 

foto | Alagoa | março17
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

09
Jul17

não, não é nesse lago entre rochedos

 

foto  Cabo Finisterra  junho'17 10

 

Não, não é nesse lago entre rochedos,
Nem nesse extenso e espúmeo beira-mar,
Nem na floresta ideal cheia de medos
Que me fito a mim mesmo e vou pensar.


É aqui, neste quarto de uma casa,
Aqui entre paredes sem paisagem,
Que vejo o romantismo, que foi asa
Do que ignorei de mim, seguir viagem.


É em nós que há os lagos todos e as florestas
Se vemos claro no que somos, é
Não porque as ondas quebrem as arestas
Verdes em branco...

 

Fernando Pessoa

 

foto | Cabo Finisterra | junho'17
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

20
Jun17

canção medrosa

 

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Na noite lívida, o Medo

Vem bater à minha porta,

Como um segredo

Da Esfinge morta.

 

Anda a rondar nas estradas,

Nas brancas encruzilhadas;

Nos sombrios pinheirais,

Onde o vento

Violento,

Há mil sombras murmurando,

Torvas de gestos, dançando

Ermas danças espectrais!

 

E todo se exalta e alegra!

Doido, ri na noite negra,

E, doido, esboça,

Quando cinge,

N'um desejo mais aceso

Que uma estrela,

Alma sozinha que passa...

E, de súbito, congela,

Sob o peso

Dos teus olhos, muda esfinge!

....

 

Teixeira de Pascoaes

 

foto | Serralves | junho'17
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

 

14
Jun17

a olhar, a olhar, no além

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...

Ó desmaiados 

Sonhos dispersos, vibrações anímicas;

Ondulações de névoa e de penumbra;

Rumores de luar, confusas vozes,

Remota claridade que se alumbra...

Ermas visões, fantasmas solitários;

Espectros de arvoredos e de estrelas,

De horizontes, de mares, de Calvários,

De pedras mortas e criaturas mortas!

Ó fumos espectrais que a Natureza,

Como um incêndio, exala no Infinito,

Trespassais o meu corpo de tristeza,

De alto mistério e perturbante enigma!

E sinto-me a afogar num mar de névoa...

E fico assim, a olhar, a olhar, no Além...

Através deste sol amanhecido,

A Penumbra ancestral, a Noite mãe!

...

 

foto | Praia d'el rey | abril17
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

 

 

 

10
Jun17

por abismos sem fim, vou caminhando...

praia d'el rey_abril17_12

 

 

 

 

Abismos

 

Por abismos sem fim, vou caminhando...

E o mais profundo abismo é o alto céu.

E que vertigens sempre sinto, quando

Me inclino sobre a luz que amanheceu!

 

É um abismo a oração que vou rezando.

É um mar sem fundo a flor que renasceu...

Nas palavras que vou pronunciando,

Cada ideia é tão alta como o céu!

 

Sobre abismos, caminho dia a dia...

Das suas negras trevas se irradia

Uma outra escuridão ainda maior...

 

Que a mim me diz, nas horas em que cismo,

Que é um abismo junto d'outro abismo,

Meu coração ao pé do seu amor.

 

Teixeira de Pascoaes

 

foto | Praia d'el Rey | maio'17

texto | A Poesia de Teixeira de Pascoaes de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

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