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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

23
Ago17

a fortaleza do espirito

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Às vezes, parece que a vida não é mais do que um teste para nossa paciência e resistência.

Há dias em que a alegria já acorda em nossa companhia; e há dias em que levantamos sem ânimo, sem mesmo saber para quê, pois até a esperança de felicidade parece extinguir-se.

O cansaço e a desesperança atacam a todos, sem excepção; e há os que sucumbem e se rendem à vida, abandonando a luta e aceitando a derrota.

Que tu não sejas um destes e acordes, hoje, como um bravo; alguém a quem a vida, muitas vezes, não oferece nada, nem mesmo a esperança - mas que, mesmo assim, cerra os dentes, levanta, reage e luta!

Que acordes como um valente, de quem o destino pode tirar os sentidos e a respiração, mas não pode tirar a coragem.

Pois, se a vida nos testa, mostremos a ela que nosso corpo pode ser frágil, mas que nossa alma é de aço.

E que a espinha de um bravo verga, mas não quebra!

 

foto | Serralves | junho'17

 

27
Jul17

imaginação

 

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A imaginação é magia e é arte
que nos faz inventar, sonhar e viajar.
Com imaginação podemos ir a Marte
ou ao centro da Terra, ou ao fundo do mar.

 

Com imaginação nunca estamos sozinhos.
A imaginação é um voo, um lugar
onde temos amigos, onde há outros caminhos
nos quais, sem te mexeres, podes ir passear.

 

Inventa uma cantiga, um poema, um desenho
um arco-íris, um rio por entre malmequeres;
esse lugar é teu, sem limite ou tamanho.
A esse teu lugar, só vai quem tu quiseres.

 

Rosa Lobato de Faria

 

foto | Serralves | junho'17

20
Jun17

oferta

 

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Nada tendo para te oferecer,
te oferto:
as rédeas da minha imaginação,
os meus versos,
e a sua precária imperfeição.

 

O que possa haver no meu canto
de puro e limpo,
claro dia, sol a pino,
frutos e flores,
cheiro de chuva subindo da terra seca,
tudo te oferto,
nesse verso, pobre bandeja.

 

Escravo do sonho,
Pintor do nada,
Equilibrista em terra firme,
Almirante sem navio,
triste até quando sorrio,
te ofereço como teto e casa
o meu ideal e esse sol bravio.

 

Maximiano Campos

 

 

foto | Exposição "Joan Miró: Materialidade e Metamorfose" - Casa de Serralves | junho'17

19
Jun17

discurso

 

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E aqui estou, cantando.

 

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

 

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

 

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

 

Pois aqui estou, cantando.

 

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

 

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

 

Cecília Meireles

 

foto | Serralves | junho'17

18
Jun17

a arte é um esquivar-se a agir, ou a viver

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A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida a acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve.

 

Bernardo Soares

foto | Serralves | junho'17
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

15
Jun17

a arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos

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Julie Mehretu - Plover's Wing, 2009

 

 

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

Bernardo Soares

 

foto | Serralves | junho'2017

texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

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