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andar por fora

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

andar por fora

15
Mai20

como os sonhos

sonia'g

0238 Retro skeleton key on burlap jute open woven fabric

 

De tudo aquilo restou-me um esquecimento
como um perfume transparente e vago.
E assim posso dizer que o respiro
como a um perfume.

 

De tudo aquilo restou-me um vazio
como um verso, de súbito, esquecido.
E assim talvez de repente o recorde
como a uns versos.

 

De tudo aquilo restou-me uma lua
secreta, lentamente evaporada.
E assim é possível que uma tarde volte
como a lua.

 

De tudo aquilo restaram-me sonhos,
sonhos, sonhos, que o tempo esfuma
E já não sei se aquilo foi sequer
como os sonhos.

 

Eduardo Carranza

 

foto | maio'20

08
Mai20

ilha das fadas

sonia'g

DSC05827

Foi isto outrora na ilha das fadas
Embrulhada em hortênsias. Não sonhei.
Sobre as lagoas de águas encantadas
Dormiam os fetos e não havia lei.

As vacas, nas colinas esfumadas
Ruminavam o eterno. Ali folguei
Na festa das crianças coroadas.
Reinava o Amor e não havia Rei.

Dentro da música a casa repousava.
Minha mãe docemente penteava
Os meus cabelos e caíam pérolas.

Rumores longínquos da infância oclusa,
Que num desvão da alma ainda debruça
Uma varanda sobre um mar de auréolas.

Natália Corrreia

 

foto | fique em casa | maio'20

22
Abr20

só o ter flores pela vista fora

sonia'g

DSC05698

 

 

Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
          Basta para podermos
          Achar a vida leve.


De todo o esforço seguremos quedas
As mãos. brincando, pra que nos não tome
          Do pulso, e nos arraste.
          E vivamos assim.


Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
          Translúcidos como água
          Em taças detalhadas,


Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
          E as rápidas caricias
          Dos instantes volúveis.


Pouco tão pouco pesarei nos braços
Com que, exilados das supernas luzes,
          Escolhermos do que fomos
          O melhor pra lembrar


Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes de repente antigos,
          E cada vez mais sombras,
          Ao encontro fatal


Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio,
           E o regaço insaciável
          Da pátria de Plutão.

 

Ricardo Reis

foto | fique em casa* | abril'20

*e já lá vão 39 dias ❤

29
Abr19

se a água cai gota a gota

sonia'g

DSC03093

 

Se a água cai gota a gota

Nas palmas da noite,

Nós dizemos solidão,

Remorso, infância imolada,

Quando são, em língua de água,

Coisas de água que se dizem,

Coisas de água que se fazem.

 

Se o vento nos roça súbito

Como se fôssemos árvores,

Nós dizemos Profecia,

Eminente veredicto,

Quando é só lufada de ar

A desfazer-se no côncavo 

Do universo vazio.

 

Não há perigo de que as coisas

Pelo seu lado se lembrem

De adotar o alfabeto 

Das nossas metamorfoses.

Elas, antes, nos diriam:

«Bebei, bebei vossas lágrimas,

Enganai a vossa sede.»

 

...

 

Jean Rousselot

 

foto | Porto | março'19

 

12
Abr19

Évora

sonia'g

DSC01629

 


Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas ... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me almoroça!

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...
E a minh'alma soturna escuta e pasma ...
E sente-se passar menina e moça ...

Florbela Espanca

 

foto | Évora | agosto'18

27
Mar19

nuvens correndo (num rio) onde vão parar?

sonia'g

1_porto_março

 

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

 

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

 

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

 

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

 

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

 

Natália Correia

 

foto | Porto | março'19

26
Mar19

o melhor (de tudo) é ser feliz!

sonia'g

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É tempo de ver o sol, ainda que seja noite,
pois sabemos "racionalmente", que o sol não sumiu,
apenas se escondeu para que a lua se exiba no céu.

 

Então, deixar-se aquecer pela certeza de que a felicidade não sumiu,
apenas deu um tempo para que a tristeza se exibisse,
mostrasse para você que o melhor de tudo é ser feliz,
e que se perdeu um amor, não perdeu a capacidade de amar,
se perdeu um dente, a boca ainda está no lugar,
se perdeu um emprego, a experiência ainda está lá,
se perdeu um parente, outro ficou para cuidar,
se perdeu um sonho, esta noite foi feita para sonhar.

 

Não se perca de você, este sim, é difícil de achar.

 

Paulo Roberto Gaefke

 

foto | Porto | março'19

12
Fev18

mostra-me antes pedras

sonia'g

Éfeso

 

Não me mostre nenhum norte

 

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

 

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

 

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.

 

António Manuel Pires Cabral

 

foto | Éfeso | agosto'17

11
Fev18

dentro de uma casa vazia

sonia'g

fotos  Acrópole de Atenas  agosto'17_5

 


Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

 

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

 

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

 

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

 

Alberto da Cunha Melo

 

foto | Acrópole de Atenas | agosto'17

04
Fev18

envelheçamos rindo

sonia'g

foto Atenas agosto'17_16

 

 

Velhas Árvores

 

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

 

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

 

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

 

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

 

Olavo Bilac, in "Poesias"

 

foto | Atenas | agosto'17

 

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