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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

29
Abr19

se a água cai gota a gota

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Se a água cai gota a gota

Nas palmas da noite,

Nós dizemos solidão,

Remorso, infância imolada,

Quando são, em língua de água,

Coisas de água que se dizem,

Coisas de água que se fazem.

 

Se o vento nos roça súbito

Como se fôssemos árvores,

Nós dizemos Profecia,

Eminente veredicto,

Quando é só lufada de ar

A desfazer-se no côncavo 

Do universo vazio.

 

Não há perigo de que as coisas

Pelo seu lado se lembrem

De adotar o alfabeto 

Das nossas metamorfoses.

Elas, antes, nos diriam:

«Bebei, bebei vossas lágrimas,

Enganai a vossa sede.»

 

...

 

Jean Rousselot

 

foto | Porto | março'19

 

12
Abr19

Évora

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Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas ... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me almoroça!

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...
E a minh'alma soturna escuta e pasma ...
E sente-se passar menina e moça ...

Florbela Espanca

 

foto | Évora | agosto'18

27
Mar19

nuvens correndo (num rio) onde vão parar?

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Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

 

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

 

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

 

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

 

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

 

Natália Correia

 

foto | Porto | março'19

26
Mar19

o melhor (de tudo) é ser feliz!

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É tempo de ver o sol, ainda que seja noite,
pois sabemos "racionalmente", que o sol não sumiu,
apenas se escondeu para que a lua se exiba no céu.

 

Então, deixar-se aquecer pela certeza de que a felicidade não sumiu,
apenas deu um tempo para que a tristeza se exibisse,
mostrasse para você que o melhor de tudo é ser feliz,
e que se perdeu um amor, não perdeu a capacidade de amar,
se perdeu um dente, a boca ainda está no lugar,
se perdeu um emprego, a experiência ainda está lá,
se perdeu um parente, outro ficou para cuidar,
se perdeu um sonho, esta noite foi feita para sonhar.

 

Não se perca de você, este sim, é difícil de achar.

 

Paulo Roberto Gaefke

 

foto | Porto | março'19

12
Fev18

mostra-me antes pedras

Éfeso

 

Não me mostre nenhum norte

 

Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

 

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de Outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

 

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.

 

António Manuel Pires Cabral

 

foto | Éfeso | agosto'17

04
Fev18

envelheçamos rindo

foto Atenas agosto'17_16

 

 

Velhas Árvores

 

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

 

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

 

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

 

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

 

Olavo Bilac, in "Poesias"

 

foto | Atenas | agosto'17

 

02
Fev18

torre esguia junto ao céu

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Torre de Névoa

 

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

 

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

 

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu! ...”

 

Calaram-se os poetas, tristemente ...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu! ...

 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


foto | Patmos | agosto'17

 

 

 

31
Jan18

uma vénia

 

 

foto Atenas agosto'17_17

 

O Poema Ensina a Cair

 

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

 

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

 

Luiza Neto Jorge, in 'O Seu a Seu Tempo'

 

foto | Atenas | agosto'17

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