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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

24
Out17

do alto do mar

 

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Tripulação!
às gáveas e às enxárcias;
ao leme e aos cordames;
atenta à tempestade
que anda no Mar
e vai
no nosso coração.

 

Tripulação!
Ajuda a tempestade...
Deixa ruir o mastro da mesena!
Lança à boca das ondas o sextante!
Deixa ao sabor das vagas o navio!
Não tenhas pena!

 

Quando haja só convés ao raso de água:
Tripulação...
Atenta.

 

Álvaro Feijó

 

foto | Mar Egeu | agosto'17

10
Set17

e ainda assim, sou mais eu

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SuperEgo

 

Numa hora eu quero tocar o barco pra frente
Noutra, quero virar o barco e afogar toda a gente.

 

Horas eu passo sem temer, sem rir, sem falar
Horas morro feito cigarra, estourada de cantar

 

Por vezes posso ser a Bela da Tarde
Por outras posso ser o fantasma da Liberdade

 

Algumas vezes mar sereno, sem ondas, sem espuma
Freqüentemente ressaca, maremoto, céu de brumas

 

Numa hora quero ser eterna, dura, diamante
Noutra sou poeira, passante, sem dia nem hora,
Sem amante sem noite e sem calmante
Só eu só
– E ainda assim, sou mais eu.

 

Ilma Fontes

 

foto | Santorini | agosto'17

 

01
Set17

urgentemente

foto Cangas de Morrazo junho'17 01

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
é urgente destruir certas palavras.
odio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras

 

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade

 

 

foto | Cangas de Morrazo | junho'17

09
Jul17

não, não é nesse lago entre rochedos

 

foto  Cabo Finisterra  junho'17 10

 

Não, não é nesse lago entre rochedos,
Nem nesse extenso e espúmeo beira-mar,
Nem na floresta ideal cheia de medos
Que me fito a mim mesmo e vou pensar.


É aqui, neste quarto de uma casa,
Aqui entre paredes sem paisagem,
Que vejo o romantismo, que foi asa
Do que ignorei de mim, seguir viagem.


É em nós que há os lagos todos e as florestas
Se vemos claro no que somos, é
Não porque as ondas quebrem as arestas
Verdes em branco...

 

Fernando Pessoa

 

foto | Cabo Finisterra | junho'17
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

23
Jun17

lá fora onde árvores são

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Lá fora onde árvores são
O que se mexe a parar
Não vejo nada senão,
Depois das árvores, o mar.

 

É azul intensamente,
Salpicado de luzir,
E tem na onda indolente
Um suspirar de dormir.

 

Mas nem durmo eu nem o mar,
Ambos nós, no dia brando,
E ele sossega a avançar
E eu não penso e estou pensando.

 

Fernando Pessoa

foto | Cabo Finisterra | junho'17
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

17
Jun17

ah quanta melancolia!

nazaré_maio17_08

 

Ah quanta melancolia!
Quanta, quanta solidão!
Aquela alma, que vazia,
Que sinto inútil e fria
Dentro do meu coração!


Que angústia desesperada!
Que mágoa que sabe a fim!
Se a nau foi abandonada,
E o cego caiu na estrada —
Deixai-os, que é tudo assim.


Sem sossego, sem sossego,
Nenhum momento de meu
Onde for que a alma emprego —
Na estrada morreu o cego
A nau desapareceu.

 

Fernando Pessoa

 

foto | Nazaré | maio'17

14
Jun17

a olhar, a olhar, no além

praia d'el rey_abril17_13

 

...

Ó desmaiados 

Sonhos dispersos, vibrações anímicas;

Ondulações de névoa e de penumbra;

Rumores de luar, confusas vozes,

Remota claridade que se alumbra...

Ermas visões, fantasmas solitários;

Espectros de arvoredos e de estrelas,

De horizontes, de mares, de Calvários,

De pedras mortas e criaturas mortas!

Ó fumos espectrais que a Natureza,

Como um incêndio, exala no Infinito,

Trespassais o meu corpo de tristeza,

De alto mistério e perturbante enigma!

E sinto-me a afogar num mar de névoa...

E fico assim, a olhar, a olhar, no Além...

Através deste sol amanhecido,

A Penumbra ancestral, a Noite mãe!

...

 

foto | Praia d'el rey | abril17
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

 

 

 

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