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andar por fora

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

andar por fora

12
Abr19

Évora

sonia'g

DSC01629

 


Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas ... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me almoroça!

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...
E a minh'alma soturna escuta e pasma ...
E sente-se passar menina e moça ...

Florbela Espanca

 

foto | Évora | agosto'18

02
Fev18

torre esguia junto ao céu

sonia'g

Patmos_4

 

Torre de Névoa

 

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

 

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

 

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu! ...”

 

Calaram-se os poetas, tristemente ...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu! ...

 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


foto | Patmos | agosto'17

 

 

 

05
Jan18

a minha dor

sonia'g

DSC09690

DSC09691

 


A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

 

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal ...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias ...

 

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

 

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve ... ninguém vê ... ninguém ...

 

Florbela Espanca

 

foto | Claustros Convento da Graça, Lisboa | dezembro'17
texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

04
Nov17

espera...

sonia'g

fotos  Acrópole de Atenas  agosto'17_17

 

Não me digas adeus, ó sombra amiga,

Abranda mais o ritmo dos teus passos;

Sente o perfume da paixão antiga,

Dos nossos bons e cândidos abraços!

 

Sou a dona dos místicos cansaços,

A fantástica e estranha rapariga

Que um dia ficou presa nos teus braços...

Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

 

Teu amor fez de mim um lago triste:

Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,

Quanta canção de ondinas lá no fundo!

 

Espera... espera... ó minha sombra amada...

Vê que pra além de mim já não há nada

E nunca mais me encontras neste mundo!...

 

Florbela Espanca

 

foto | Acrópole de Atenas | agosto'17

16
Ago17

tarde no mar

sonia'g

foto Ilhas Cies - Vigo junho'17 12

 


A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

 

Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!

 

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...

 

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...

 

Florbela Espanca

 

foto | Ilhas Cies - Vigo | junho'17 
texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

 

03
Ago17

para quê?

sonia'g

 

foto  S. Torcato - Guimarães  fevereiro'17 32

 

Para quê ser o musgo do rochedo
Ou urze atormentada da montanha?
Se arranca a ansiedade e o medo
E este enleio e esta angústia estranha

E todo este feitiço e este enredo
Do nosso próprio peito? E é tamanha
E tão profunda a gente que o segredo
Da vida como um grande mar nos banha?

Pra quê ser asa quando a gente voa,
De que serve ser cântico se entoa
Toda a canção de amor do Universo?

Para quê ser altura e ansiedade,
Se se pode gritar uma Verdade
Ao mundo vão nas sílabas dum verso?

 

Florbela Espanca

 

 

foto |  S. Torcato - Guimarães | fevereiro'17
texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

28
Jul17

torre de névoa

sonia'g

Guimarães fevereiro'17 21

Subi ao alto, à minha torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: «Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...»

Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha torre esguia junto ao céu!...

 

Florbela Espanca

 

foto | Guimarães | fevereiro'17 
texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

 

23
Jul17

ruínas

sonia'g

Alagoa_março17_05

 


Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

 

E deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

 

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais alto do que as águias pelo ar!

 

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... Deixa-os tombar.

 

Florbela Espanca

 

foto | Alagoa | março17
texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

 

20
Jul17

desejos vãos

sonia'g

foto Cascata de Ézaro junho'17 11

 

 

Eu queria ser o mar de altivo porte
Que ri e canta, a vestidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

 

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a ávore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

 

Mas o Mar também chora de tristeza...
As ávores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

 

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras...essas...pisa-as toda gente!...

 

Florbela Espanca

foto | Cascata de Ézaro | junho'17 
texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

14
Jul17

castelã da tristeza

sonia'g

Guimarães fevereiro'17 07

 

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor...
E nunca em meu castelo entrou alguém!

 

Castelã da Tristeza, vês?... A quem?!...
- E o meu olhar é interrogador -
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio...nada...ninguém vem...

 

Castelã da Tristeza, por que choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais?...

 

À noite, debruçada p'las ameias,
Por que rezas baixinho? Por que anseias?...
Que sonho afagam tuas mãos reais?...

 

Florbela Espanca

 

foto | Guimarães | fevereiro'17

texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

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