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andar por fora

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

andar por fora

22
Abr20

só o ter flores pela vista fora

sonia'g

DSC05698

 

 

Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
          Basta para podermos
          Achar a vida leve.


De todo o esforço seguremos quedas
As mãos. brincando, pra que nos não tome
          Do pulso, e nos arraste.
          E vivamos assim.


Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
          Translúcidos como água
          Em taças detalhadas,


Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
          E as rápidas caricias
          Dos instantes volúveis.


Pouco tão pouco pesarei nos braços
Com que, exilados das supernas luzes,
          Escolhermos do que fomos
          O melhor pra lembrar


Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes de repente antigos,
          E cada vez mais sombras,
          Ao encontro fatal


Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio,
           E o regaço insaciável
          Da pátria de Plutão.

 

Ricardo Reis

foto | fique em casa* | abril'20

*e já lá vão 39 dias ❤

09
Out17

o girassol

sonia'g

DSC05824

 

 

Girassol que na retina
Da planície se dissolve.
És a cor mais repentina
Da aragem que te envolve.

Girassol que só te viras
Ao que não te fica perto
E só giras porque giras
Sobre o teu eixo secreto.

 

Girassol que sem volume
Volume que sem contorno
No despegar-se resume
Só a pressa do retorno.

 

Natália Corrreia 

 

foto |  Alagoa | agosto'17
texto | in "Antologia Poética - Natália Corrreia | D. Quixote | 2013

04
Set17

o meu olhar

sonia'g

DSC05827

 

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…


Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”

 

foto | Alagoa | agosto'2017

06
Jun17

é sempre muito simples

sonia'g

 

 

mirandela_março17_09

 

É sempre muito simples
se olhares para o chão
tu verás as pedras
o lixo
o escolho
e o cascalho.

 

É sempre muito simples
se olhares para o chão
tu verás a pegada
asfalto
e a sarjeta.

 

É sempre muito simples
se olhares para o chão
tu verás as raízes
tu verás as folhas
folhas mortas, caídas.

 

É sempre muito simples
se olhares para frente
tu verás as paredes
as casas
os edifícios.

 

É sempre muito simples
se olhares para frente
tu verás as árvores
os verdes
e as flores.

 

É sempre muito simples
se olhares para o alto
tu verás o céu
os pássaros

e as estrelas.

 

Mas se olhares para dentro
para dentro de ti mesmo
tu verás o infinito.

 

Benedicto Monteiro

 

foto | Mirandela | março'17

03
Mai17

um vaso de sardinheiras

sonia'g

DSC03851

 

 

As árvores e os livros

 

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

 

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

 

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

 

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

 

Jorge Sousa Braga

 

foto | Óbidos | abril'17

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