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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

29
Mar19

qualquer música, ah, qualquer

2

 


Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

 

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

 

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!

 

Fernando Pessoa

 

foto | Tunisia | agosto'18

 

17
Jan18

segue o teu destino

foto Patmos agosto'17_02

 


Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

 

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

 

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixa a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

 

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

 

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

 

Ricardo Reis

 

foto | Patmos | agosto'17

 

04
Jan18

o som do relógio

DSC09483

 

 

O som do relógio
Tem a alma por fora,
Só ele é a noite
E a noite se ignora.


Não sei que distância
Vai de som a som
Rezando, no tique
Do taque do tom.


Mas oiço de noite
A sua presença
Sem ter onde acoite
Meu ser sem ser.


Parece dizer
Sempre a mesma coisa
Como o que se senta
E se não repousa.

 

Fernando Pessoa

 

foto | Café A Brasileira 
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

03
Dez17

tudo o que faço ou medito

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Tudo o que faço ou medito
Fica sempre pela metade,
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.


Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma e' lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço –


Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de alem...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.

 

Fernando Pessoa

 

foto | Torre de Moncorvo | agosto'17

21
Ago17

depois que todos foram

 

DSC05726

 

 

Depois que todos foram
E foi também o dia,
Ficaram entre as sombras
Das áleas do ermo parque
Eu e a minha agonia.


A festa fora alheia
E depois que acabou
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Quem eu fui e quem sou.


Tudo fora por todos.
Brincaram, mas enfim
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Só eu, e eu sem mim.


Talvez que no parque antigo
A festa volte a ser.
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Eu e quem sei não ser.

 

Fernando Pessoa

 

foto | Ronfe - Guimarães | julho'17
texto | Pessoa e Pessoas de Pessoa- EXINOV Editora | 2010

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