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andar por fora

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

andar por fora

23
Nov17

na véspera de nada

sonia'g

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Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.


Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.

 

Fernando Pessoa

foto | Cala Pregonda | agosto'17
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

26
Out17

meu coração

sonia'g

 

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Da terra, uma semente pequenina

Abre ao sol, em sorrisos de verdura.

E o rubro raio aceso que fulmina,

Rasga o seio da nuvem que é ternura.

Ao longo da êrma e pálida colina,

Um doce fio de água anda à procura

De alguma rosa angélica e divina,

Abandonada e morta de secura

Meu forte coração também nasceu

Para criar cantando um novo céu.

Ninguém lhe entende a mística harmonia.

Lembra remota estrela desmaiada

Que mal se vê na abóbada azulada,

Mas para um outro mundo, é grande dia.

 

Teixeira de Pascoaes

foto| Cala Predonga - Menorca | agosto'17
texto | A Poesia de Teixeira de Pascoaes de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

23
Out17

viver sempre também cansa!

sonia'g

 

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O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

 

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem,
A lua não tem olhos
Ninguém vai pintar olhos à lua

 

Tudo é igual, mecânico e exacto

 

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem riem e digerem
sem imaginação.

 

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida...

 

E obrigam-me a viver até à morte!

 

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho
De vez em quando
E recomeçar depois
Achando tudo mais novo?

 

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses
Morrer em cima dum divã
Com a cabeça sobre uma almofada
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do norte.

 

Quando viessem perguntar por mim
Havias de dizer com teu sorriso
Onde arde um coração em melodia
Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela

 

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..

 

José Gomes Ferreira

 

foto | Cala Pregonda | agosto'17

20
Out17

inscrição

sonia'g

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Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?

 

Não encontro caminhos
fáceis de andar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar.

 

E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.

 

Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.

 


Cecília Meireles

 

foto | Cala Pregonda | agosto'17

18
Out17

um pequeno paraíso

sonia'g

 

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Cala Pregonda, na costa norte, é uma das praias mais conhecidas e apreciadas de Menorca.

 

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As combinações de cor da sua areia, ouro e vermelho, diferencia esta enseada de qualquer outra praia.

 

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 Localizada no sopé de uma colina sob vários penhascos, sua beleza e paisagem singular tornam-na num dos dos pontos mais bonitos da ilha.

 

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O acesso não é fácil, mas a grande beleza natural compensa a longa caminhada.

 

fotos | Cala Pregonda - Menorca | agosto'17

09
Out17

a beleza da linguagem

sonia'g

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Eu, que amei com verdadeiro amor cada pedra do meu caminho e, sobretudo, a pedra trabalhada pela mão do homem, o tijolo, a pedra da calçada, porque compreendi toda a amargura do trabalho, e para além desta amargura toda a beleza do trabalho, eu que surpreendi o segredo de cada palavra, de cada pedra que eu soube abrir como se abre uma ostra para lhe saborear o fruto acompanhando-o com vinho branco, eu que abri o pelo ouriçado das palavras novas com tesouras de claridade - moeda sonora batida na efíge do sol -, eu posso-vos dizer: amemos as palavras porque as palavras vêm dos nossos irmãos e a nossos irmãos regressam.

Acolhamo-las, pois, fraternalmente. Sejamos a encruzilhada, o centro incandescente donde elas ressurgirão mais novas, mais precisas, mais reais.

Com estas pedras que fiz cantar como um seixal, construamos belos edifícios onde viverá o pensamento. O pensamento habita a frase e anima-a como o caracol a sua concha. Cuidemos da nossa sintaxe, cultivemos o nosso vocabulário: não deixemos abrirem-se muros nem oxidarem-se os instrumentos. Jovens poetas, amemos esta bela linguagem e celebremos as núpcias das palavras como real.

 

André Liberati

 

foto | Cala Pregonda | agosto'17
texto | in " Voz Consoante - Traduções de Poesia" de António Ramos Rosa - Quasi Edições | 2006

 

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