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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

26
Out17

meu coração

 

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Da terra, uma semente pequenina

Abre ao sol, em sorrisos de verdura.

E o rubro raio aceso que fulmina,

Rasga o seio da nuvem que é ternura.

Ao longo da êrma e pálida colina,

Um doce fio de água anda à procura

De alguma rosa angélica e divina,

Abandonada e morta de secura

Meu forte coração também nasceu

Para criar cantando um novo céu.

Ninguém lhe entende a mística harmonia.

Lembra remota estrela desmaiada

Que mal se vê na abóbada azulada,

Mas para um outro mundo, é grande dia.

 

Teixeira de Pascoaes

foto| Cala Predonga - Menorca | agosto'17
texto | A Poesia de Teixeira de Pascoaes de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

23
Out17

viver sempre também cansa!

 

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O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

 

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem,
A lua não tem olhos
Ninguém vai pintar olhos à lua

 

Tudo é igual, mecânico e exacto

 

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem riem e digerem
sem imaginação.

 

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida...

 

E obrigam-me a viver até à morte!

 

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho
De vez em quando
E recomeçar depois
Achando tudo mais novo?

 

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses
Morrer em cima dum divã
Com a cabeça sobre uma almofada
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do norte.

 

Quando viessem perguntar por mim
Havias de dizer com teu sorriso
Onde arde um coração em melodia
Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela

 

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..

 

José Gomes Ferreira

 

foto | Cala Pregonda | agosto'17

20
Out17

inscrição

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Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?

 

Não encontro caminhos
fáceis de andar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e de ar.

 

E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.

 

Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.

 


Cecília Meireles

 

foto | Cala Pregonda | agosto'17

18
Out17

um pequeno paraíso

 

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Cala Pregonda, na costa norte, é uma das praias mais conhecidas e apreciadas de Menorca.

 

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As combinações de cor da sua areia, ouro e vermelho, diferencia esta enseada de qualquer outra praia.

 

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 Localizada no sopé de uma colina sob vários penhascos, sua beleza e paisagem singular tornam-na num dos dos pontos mais bonitos da ilha.

 

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O acesso não é fácil, mas a grande beleza natural compensa a longa caminhada.

 

fotos | Cala Pregonda - Menorca | agosto'17

09
Out17

a beleza da linguagem

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Eu, que amei com verdadeiro amor cada pedra do meu caminho e, sobretudo, a pedra trabalhada pela mão do homem, o tijolo, a pedra da calçada, porque compreendi toda a amargura do trabalho, e para além desta amargura toda a beleza do trabalho, eu que surpreendi o segredo de cada palavra, de cada pedra que eu soube abrir como se abre uma ostra para lhe saborear o fruto acompanhando-o com vinho branco, eu que abri o pelo ouriçado das palavras novas com tesouras de claridade - moeda sonora batida na efíge do sol -, eu posso-vos dizer: amemos as palavras porque as palavras vêm dos nossos irmãos e a nossos irmãos regressam.

Acolhamo-las, pois, fraternalmente. Sejamos a encruzilhada, o centro incandescente donde elas ressurgirão mais novas, mais precisas, mais reais.

Com estas pedras que fiz cantar como um seixal, construamos belos edifícios onde viverá o pensamento. O pensamento habita a frase e anima-a como o caracol a sua concha. Cuidemos da nossa sintaxe, cultivemos o nosso vocabulário: não deixemos abrirem-se muros nem oxidarem-se os instrumentos. Jovens poetas, amemos esta bela linguagem e celebremos as núpcias das palavras como real.

 

André Liberati

 

foto | Cala Pregonda | agosto'17
texto | in " Voz Consoante - Traduções de Poesia" de António Ramos Rosa - Quasi Edições | 2006

 

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