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andar por fora

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

andar por fora

11
Fev18

dentro de uma casa vazia

sonia'g

fotos  Acrópole de Atenas  agosto'17_5

 


Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

 

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

 

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

 

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

 

Alberto da Cunha Melo

 

foto | Acrópole de Atenas | agosto'17

31
Jan18

uma vénia

sonia'g

 

 

foto Atenas agosto'17_17

 

O Poema Ensina a Cair

 

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

 

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

 

Luiza Neto Jorge, in 'O Seu a Seu Tempo'

 

foto | Atenas | agosto'17

04
Dez17

humanidade às cegas

sonia'g

foto Atenas agosto'17_09

 


Tanto jornal, tanta rádio, tanta agência de informações, e nunca a humanidade viveu tão às cegas. Cada hora que passa é um enigma camuflado por mil explicações. A verdade, agora, é uma espécie de sombra da mentira. E como qualquer de nós procura quase sempre apenas o concreto, cada coisa que toca deixa-lhe nas mãos o simples negativo da sua realidade.

 

Miguel Torga, in "Diário (1948)"

 

foto | Atenas | agosto'17

 

31
Out17

o que é a felicidade

sonia'g

 

DSC08105

 

Que é a Felicidade? É ver a gente,

Fora de nós, o Sonho que sonhou...

Abraça-lo e beijá-lo eternamente,

E com ele fugir n'um grande voo!

É tocar com as nãos Esperança;

E sentir o seu peso, e a gente ver

Que se curva sob ele e que se cansa

Até cair de rastros e morrer!

 

Teixeira de Pascoaes

 

foto | Atenas | agosto'17
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

27
Out17

não: devagar

sonia'g

DSC08068

 

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.


Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
TaIvez a impressão dos momentos seja muito próxima...


Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

 

Álvaro de Campos

foto | Atenas | agosto'17
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

26
Out17

sombra humana

sonia'g

 

DSC08091

 

 

Quando passeio ao longo dos caminhos,

Batem asas de medo os passarinhos;

Escondem-se os repteis no tojo em flor.

Minha presença espalha um trágico pavor

Nas pobres criaturas

Que vivem neste mundo, assim como às escuras!

 

Avezinha fugindo ao ruído dos meus passos,

Se o que eu sino por ti, acaso, pressentisses,

Tu virias fazer o ninho nos meus braços...

Virias ter comigo, ó pedra, se me ouvisses!

 

Teixeira de Pascoaes

 

foto | Atenas | agosto'17
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

25
Out17

dá-me a tua mão

sonia'g

 

DSC07963

 

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

 

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

 

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

 

Clarice Lispector

 

foto | Atenas | agosto'17

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