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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

23
Dez17

procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos

 

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Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações da infância.
Preciso de um amigo para não enlouquecer, para contar o que vi de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças d´água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. Preciso de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já tenho um amigo.
Preciso de um amigo para parar de chorar. Para não viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que me chame de amigo, para que eu tenha a consciência de que ainda vivo.


Vinícius de Moraes

 

foto | Lisboa | dezembro'17

21
Nov17

ou isto ou aquilo

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Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

 

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

 

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

 

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

 

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

 

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo ...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

 

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

 

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Cecília Meireles

 

foto | Son Bou - Menrca | agosto'17 

12
Ago17

pés de galinha

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Passei a infância toda
Achando que a minha mãe
Gostava de pés de galinha,
Comia com tanto gosto
Chupava até os ossinhos.
“Ninguém come os pés, são meus”- dizia
Toda a carne dividia
Peito, coxas e titela,
Fígado, coração e muela,
Mas os pés, os pés era só prá ela.
Depois de todos servidos,
Então sentava e comia.
Mas o tempo foi passando,
A criançada crescendo,
Os maiores trabalhando,
A vida foi melhorando.
Depois de uma infância dura
Começamos Ter fartura.
Vi minha mãe na cozinha
Tratando de uma galinha
E ao contrário de outrora
Flagrei aquela velhinha
Jogando os pèzinhos fora
Ao notar o meu espanto
Aquele coração santo
Da minha doce mãezinha
Apressou-se em explicar:
“Nunca gostei do tal do pé de galinha”
É que a carne era tão pouca,
Prá tantas bocas não dava,
E prá você não ficar triste
Eu fingia que gostava.

 

Bernardo Alves

 

foto | Alagoa | março'17

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