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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

01
Dez17

paisagens

 

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o verão estende a sua sombra até aos joelhos
em que a luz se dobra: a isso chamávamos Outono

 

Na campânula do nevoeiro o plátano
incendeia a cinza: oiro e vermelho
inverosímeis como uma tempestade
eléctrica no écran da janela;
uma floração delirante do olhar
afectado pelo crepúsculo
recordado na paixão.
Depois
a água gris lavará tudo
excessivamente.

 

Manuel Gusmão

fotos | Alagoa | Novembro'17

28
Nov17

alegoria

 

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Fruto tão maduro
Que me apodreceu.
Foi-se a colheita do futuro:
Podeis aproveitar, aves do céu!

 

Pomar de luto.
Venha outro Outono pra me consolar;
Outro fruto
Que mate a minha fome e sede de cantar.

 

E não mais espantalhos a suster
A gula natural dos meus sentidos:
Seja, enfim, livre pra morder,
Ainda verde, o que nascer
Destes ramos despidos!

 

António Manuel Couto Viana

 

foto | Alagoa | Novembro'17

27
Nov17

valsa nos ramos

 

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Caiu uma folha.
E duas.
E três.
Na lua nadava um peixe.
A água dorme uma hora
e o mar branco dorme cem.
A dama
estava morta na rama.
A monja
cantava dentro da toronja.
A menina
pelo pinho ia até à pinha.
E o pinho
buscava a plúmula do trino.
Mas o rouxinol
chorava suas feridas em redor do sol.
E eu também
porque caiu uma folha
e duas
e três.
E uma cabeça de cristal
e um violino de papel.
E a neve poderia com o mundo,
se a neve dormisse todo o mês,
e os ramos lutavam com o mundo,
um a um,
dois a dois
três a três.
Oh duro marfim de carnes invisíveis!
Oh golfo sem formigas ao amanhecer!
Chegará um torso de sombra
coroado de louros.
Será o céu para o vento
duro como uma parede
e os ramos arrancados
irão dançar com ele.
Um a um
em volta da lua,
dois a dois
em volta do sol,
e três a três

para que os marfins adormeçam bem.

Federico García Lorca

 

foto | Alagoa | Novembro'17

24
Nov17

a fermosura desta fresca serra

 

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A fermosura desta fresca serra
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

 

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

 

Enfim, tudo o que a rara Natureza
Com tanta variedade nos oferece,
Me está, se não te vejo, magoando.

 

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias, mor tristeza.

 

Luís de Camões

 

foto | Alagoa | Novembro'17

09
Out17

o girassol

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Girassol que na retina
Da planície se dissolve.
És a cor mais repentina
Da aragem que te envolve.

Girassol que só te viras
Ao que não te fica perto
E só giras porque giras
Sobre o teu eixo secreto.

 

Girassol que sem volume
Volume que sem contorno
No despegar-se resume
Só a pressa do retorno.

 

Natália Corrreia 

 

foto |  Alagoa | agosto'17
texto | in "Antologia Poética - Natália Corrreia | D. Quixote | 2013

17
Ago17

fontanário da saudade

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Por ele correm os tempos
todos eles diferentes
mas igualmente difíceis
Já muita sede matou
e ficou no esquecimento
Já ninguém para ele olha
em sinal de agradecimento
Nem já vê nele arte viva


Fontanário da saudade
monumento desprezado
sem direito a despedida
Há em ti uma imponência
e eu sinto a tua presença
corre em ti um fio de vida
 
 
Maria Fernanda Reis Esteves
 
 

foto | Alagoa | março'17

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