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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

01
Set17

telhados dos vizinhos

óbidos_abril17_09

 


Atirar pedra no telhado do vizinho é fácil, o difícil é olhar para o seu próprio telhado e repará-lo quando alguma telha estiver quebrada e o caco de vidro cair sobre a sua cabeça. É sempre fácil condenar o outro e esquecer de si próprio - Portanto...cuidado ao atirar a pedra no telhado dos outros. Certifique-se antes, se o seu telhado também não é de vidro!


Vasty Frazao

 

foto | Óbidos | abril17

12
Jun17

um adeus português

óbidos_abril17_12

 

 

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada


Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

 

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

 

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

 

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal

 

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

 

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

 

*

 

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

 

Alexandre O'Neill, in 'Poesia Completas'

 

foto | Óbidos | abril17

04
Jun17

à garrafa

 

óbidos_abril17_08

 

Contigo adquiro a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.

 

Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.

 

Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces, suicida,

 

numa explosão
de diamantes.

 

José Paulo Paes

 

foto | Óbidos | abril'17

29
Mai17

saudade

óbidos_abril17_11

 



Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

 

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

 

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

 

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

 

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

 

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

 

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

 

Pablo Neruda

 

foto | Óbidos | abril'17

15
Mai17

velho muro

 

arcada

 

Velho muro da chácara! Parcela
Do que já foste: resto do passado,
Bolorento, musgoso, úmido, orlado
De uma coroa víride e singela.

 

Forte e novo eu te vi, na idade bela
Em que, falando para o namorado,
Tinhas no ombro de pedra debruçado
O corpo senhoril de uma donzela…

 

Linda epoméia te bordava a crista;
Eras, ao luar de leite, um linho albente,
Folha de prata, ao sol, ferindo a vista.

 

Em ti pousava a doce borboleta…
E quantas noites viste, ermo e silente,
Romeu beijando as mãos de Julieta!

 

Bernardino Lopes

 

foto | Óbidos | abril'17

04
Ago13

vila guardada entre muralhas...

Óbidos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem por ti, Óbidos, passa,
Sente o fascínio do tempo,
Ao evocar a desgraça
Das guerras, cuja ameaça
Vinha nas vozes do vento.
 
Manténs cercadas de ameias
Ruas estreitas, vielas.
Mas o fluir das ideias
Que, sem fragor, incendeias,
Não cabem lá dentro delas.
 
Contam teus muros histórias
De sangue, heróis e pelejas,
De resistência, vitórias.
E, dessas tuas memórias,
Renasces, como desejas.
 
Vítor Cintra

 

FOTOS:

Óbidos

junho'13

 

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