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andar por fora ...

Há pequenos instantes de vida que preenchem o momento. O instante foge. Eternizam-se ou passam despercebidos. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

05
Jan18

a minha dor

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A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

 

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal ...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias ...

 

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

 

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve ... ninguém vê ... ninguém ...

 

Florbela Espanca

 

foto | Claustros Convento da Graça, Lisboa | dezembro'17
texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

04
Jan18

o som do relógio

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O som do relógio
Tem a alma por fora,
Só ele é a noite
E a noite se ignora.


Não sei que distância
Vai de som a som
Rezando, no tique
Do taque do tom.


Mas oiço de noite
A sua presença
Sem ter onde acoite
Meu ser sem ser.


Parece dizer
Sempre a mesma coisa
Como o que se senta
E se não repousa.

 

Fernando Pessoa

 

foto | Café A Brasileira 
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

03
Jan18

noite

 

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Noite velha, por sobre
A terra fria e nua,
A muda ondulação
Da escuridão flutua.
Onde a treva é mais densa
Há gestos doloridos
E vultos a chorar
Que perdem os sentidos.
Uma chuva miúda
E triste nos beirais
Põe murmúrios de dor,
Misteriosos ais…
De tudo a solidão
Extática dimana,
E cada cousa veste
Uma expressão humana…
E entre elas e o infinito
Há diálogos profundos.
Enche a noite sem fim
A ignota voz dos mundos…

 

Teixeira de Pascoaes

 

foto | Lisboa | dezembro'7
texto | in " A Poesia de Teixeira de Pascoaes" de Jorge de Sena - Brasília Editora | 1982

02
Jan18

noite de fado vadio

 

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O meu local de eleição para uma noite de fado vadio foi a Tasca do Chico, no Bairro Alto.

 

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Uma verdadeira taberna portuguesa rústica e pequena onde se pode saborear e desfrutar de algumas das iguarias da gastronomia portuguesa. 

 

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À hora marcada faz-se silêncio e ouve-se a tradição.

 

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A decoração enaltece o espírito fadista. 

 

fotos | Tasca do Chico, Bairro Alto - Lisboa | dezembro'17

01
Jan18

receita de Ano Novo

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Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor de arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido ou talvez sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser, novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?). Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar de arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto da esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

♥ Um Doce 2018 ♥  

foto | Lisboa | dezembro'17

31
Dez17

o meu nome é esperança

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Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

 

Mário Quintana

 

foto | Lisboa | dezembro'17

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