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andar por fora

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

Há pequenos instantes na vida que preenchem o momento. É preciso recomeçar a viagem. Sempre!

andar por fora

19
Jul17

ter esperança; qualquer esperança

sonia'g

 

foto  Cabo Finisterra  junho'17 21

 

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se.
Ter esperança; qualquer esperança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez.
Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim.
Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade
e nada mais valerá a pena.
Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento,
o melhor que afinal se conseguiu fazer.

 

Lya Luft

 

foto | Cabo Finisterra | junho'17

19
Jul17

o rio que passa dura

sonia'g

foto Cascata de Ézaro junho'17 03

 

 

O rio que passa dura
Nas ondas que há em passar,
E cada onda figura
O instante de um lugar.


Pode ser que o rio siga,
Mas a onda que passou
É outra quando prossiga.
Não continua: durou.


Qual é o ser que subsiste
Sob estas formas de estar,
A onda que não existe,
O rio que é só passar?


Não sei, e o meu pensamento
Também não sabe se é,
Como a onda o seu momento
Como o rio ?

 

Fernando Pessoa

foto | Cascata de Ézaro | junho'17
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

18
Jul17

meto-me para dentro, e fecho a janela

sonia'g

piódão_março17_09

 

 

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites.
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,


A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, sem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

 

Alberto Caeiro

foto | Piódão | março17
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

17
Jul17

saber viver

sonia'g

foto  Cabo Finisterra  junho'17 22

 


Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

 

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

 

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto durar.

 

Cora Coralina

 

foto | Cabo Finisterra | junho'17

17
Jul17

como o véu solto na dança

sonia'g

foto Cascata de Ézaro junho'17 13

 


Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança,
Que és no juizo apenas a criança,
Pouco mais, nos vestidos, que a menina...

 

Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao soffrer logo se inclina...

 

Mas, filha, lá nos montes onde andei,
Tanto me enchi de angústia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,

 

Que não quero imperar nem já ser rei
Senão tendo meus reinos em teu seio
E súbditos, criança, em teus bonecos!

 

Antero de Quental, in "Sonetos»

 

foto | Cascata de Ézaro | junho'17

16
Jul17

conquista

sonia'g

 

foto  S. Torcato - Guimarães  fevereiro'17 30

 

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

 

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

 

Miguel Torga

 

foto | S. Torcato - Guimarães | fevereiro'17 

15
Jul17

que fizemos das árvores?

sonia'g

Alagoa_março17_13

 

Que fizemos das árvores? Era fácil pousar

o ouvido num ramo que de longe trazia

do fundo da infância os búzios encantados

porque as árvores eram coisas que diante de nós

estavam acontecendo num incrível passado

Uma peste com asas ensaiámos nos tubos

de um ódio que à estrela feroz dos nascimentos

a vida que nos deu não pode perdoar

e ante a nossa presença se contorcem as árvores

com romanzas de folhas brutalmente caladas

pela estratégia sombria das piranhas metálicas

que para o pesadelo de um ouro demoníaco

arrastam a carcaça do verde e dos céus sáfaros

como pétalas podres caem mortos os pássaros

e à febre das areias que deliram ao sol

arremessam as águas primeiras do dilúvio

as espinhas dos peixes que dos bruscos terraços

das ondas se despenham em luas de petróleo

...

Natália Corrreia

 

foto | Alagoa | março17
texto | in "Antologia Poética - Natália Corrreia | D. Quixote | 2013

14
Jul17

castelã da tristeza

sonia'g

Guimarães fevereiro'17 07

 

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor...
E nunca em meu castelo entrou alguém!

 

Castelã da Tristeza, vês?... A quem?!...
- E o meu olhar é interrogador -
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio...nada...ninguém vem...

 

Castelã da Tristeza, por que choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais?...

 

À noite, debruçada p'las ameias,
Por que rezas baixinho? Por que anseias?...
Que sonho afagam tuas mãos reais?...

 

Florbela Espanca

 

foto | Guimarães | fevereiro'17

texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

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