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andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

eu já não choro

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Eu já não choro
excepto por aquilo que algum dia
me fez chorar:
os aviões que proclamavam
que tudo tinha terminado;
a estação amarela diluída na noite
na qual coincidiam, somente por uns instantes,
o comboio que partia para o norte
e o que partia para o oeste
e que jamais voltariam a encontrar-se;
e a voz de Juan Rulfo: “diz-lhes que não me matem”;
e a malaguenha canária;
e a menina de Lisboa
que me pediu um “beijinho”.

Eu já não choro.
Nem sequer quando recordo
o que ainda me falta chorar.

 

José Hierro

 

foto | Pinhão | outubro'12