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andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

desfloramento

286 - Cópia.JPG

 

   

Venho das noites escuras

E aprendi a ver nas trevas

e a ler nas trevas.

Venho das noites escuras

e sei o grande soluço das sombras

e os cânticos impotentes dos peregrinos.

Venho das noites escuras

e daí o meu amor imenso pela luz!

E quanto mais treva era a treva

melhor eu aprendia a amar a luz do sol,

e dos meus olhos sempre mais e mais abertos

a luz interior irradiando aniquilava as sombras...

E sendo sempre noite, era cada vez mais manhã.

E cada vez mais enorme e definitiva, a manhã subia,

a-pesar-da treva, a-pesar-do silêncio, a-pesar-de tudo!

E cada vez mais era manhã. E era ainda a noite.

 

A flor romântica da treva esfolhou-se nos dedos.

E então nasci.

E então vi que estava nu,

E alegrei-me por estar nu,

enfim!

Sorvi os frutos da terra,

e já não me souberam a papel impresso!

Sacudi a poeira do que me tinham ensinado,

e comecei a saber.

 

Sob as palavras, desvendou-se então a voz,

e a canção ardente da vida já não encontrou algodão

nos meus ouvidos.

 

Ah! Só quem veio das trevas e das noites escuras

pode amar assim o imenso mundo do sol!

 

Adolfo Casais Monteiro

 

FOTO | Caminha | agosto'14