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andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

a beleza da linguagem

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Eu, que amei com verdadeiro amor cada pedra do meu caminho e, sobretudo, a pedra trabalhada pela mão do homem, o tijolo, a pedra da calçada, porque compreendi toda a amargura do trabalho, e para além desta amargura toda a beleza do trabalho, eu que surpreendi o segredo de cada palavra, de cada pedra que eu soube abrir como se abre uma ostra para lhe saborear o fruto acompanhando-o com vinho branco, eu que abri o pelo ouriçado das palavras novas com tesouras de claridade - moeda sonora batida na efíge do sol -, eu posso-vos dizer: amemos as palavras porque as palavras vêm dos nossos irmãos e a nossos irmãos regressam.

Acolhamo-las, pois, fraternalmente. Sejamos a encruzilhada, o centro incandescente donde elas ressurgirão mais novas, mais precisas, mais reais.

Com estas pedras que fiz cantar como um seixal, construamos belos edifícios onde viverá o pensamento. O pensamento habita a frase e anima-a como o caracol a sua concha. Cuidemos da nossa sintaxe, cultivemos o nosso vocabulário: não deixemos abrirem-se muros nem oxidarem-se os instrumentos. Jovens poetas, amemos esta bela linguagem e celebremos as núpcias das palavras como real.

 

André Liberati

 

foto | Cala Pregonda | agosto'17
texto | in " Voz Consoante - Traduções de Poesia" de António Ramos Rosa - Quasi Edições | 2006