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andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

o largo do coreto

foto  S. Torcato - Guimarães  fevereiro'17 3

 


A banda já chegou
Àquele domingo, no jardim
Há fardas engomadas
E um perfume de jasmim.
E enche-se o coreto
E trompetes e trombones
De clarins
E saxofones.
Marias e magalas, mão na mão,
Crianças de berlingue ou de pião,
Senhores empertigados
Ofereciam rebuçados
Às senhoras
Pois então!
E o largo do coreto, pouco a pouco
Enchia-se no quadro mais barroco
E o homem das castanhas
Com as suas artimanhas
Enganava-se no troco.
Foi há tanto tempo
Num domingo, no jardim
Era como se a banda
Só tocasse para mim.
E o maestro regia
Com tais modos de importância
Que marcou
A minha infância

 

O Largo do Coreto, José Cid

 

foto | S. Torcato - Guimarães | fevereiro'17

 

 

depois que todos foram

 

DSC05726

 

 

Depois que todos foram
E foi também o dia,
Ficaram entre as sombras
Das áleas do ermo parque
Eu e a minha agonia.


A festa fora alheia
E depois que acabou
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Quem eu fui e quem sou.


Tudo fora por todos.
Brincaram, mas enfim
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Só eu, e eu sem mim.


Talvez que no parque antigo
A festa volte a ser.
Ficaram entre as sombras
Das áleas apertadas
Eu e quem sei não ser.

 

Fernando Pessoa

 

foto | Ronfe - Guimarães | julho'17
texto | Pessoa e Pessoas de Pessoa- EXINOV Editora | 2010

violeta

 

DSC05734

 


Não quero a glória.
A glória é inveja, quimeras, enganos e intranquilidade.
Eu pouparei à história
banal a minha memória.
Mais que os aplausos - enganosa escória -
amo um ceptro augusto: a tranquilidade.
Não quero que o mundo coroe a minha fronte.
Eu quero ser fonte,
não quero ser mar.
Não quero ser condor que o céu levante o seu voo.
A calhandra não pode voar até ao céu,
mas sabe cantar.

 

Nicolás Guillén

 

foto | Ronfe -  Guimarães | julho'17

viver com o coração

DSC05725

 

A palavra coragem é muito interessante. Ela vem da raiz latina cor, que significa "coração". Portanto, ser corajoso significa viver com o coração. E os fracos, somente os fracos, vivem com a cabeça; receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica. Com medo, fecham todas as janelas e portas – com teologia, conceitos, palavras, teorias – e do lado de dentro dessas portas e janelas, eles se escondem. O caminho do coração é o caminho da coragem. É viver na insegurança, é viver no amor e confiar, é enfrentar o desconhecido. É deixar o passado para trás e deixar o futuro ser. Coragem é seguir trilhas perigosas. A vida é perigosa. E só os covardes podem evitar o perigo – mas aí já estão mortos. A pessoa que está viva, realmente viva, sempre enfrentará o desconhecido. O perigo está presente, mas ela assumirá o risco. O coração está sempre pronto para enfrentar riscos; o coração é um jogador. A cabeça é um homem de negócios. Ela sempre calcula – ela é astuta. O coração nunca calcula nada. Torne-se comum e você será extraordinário; tente se tornar extraordinário e você continuará sendo comum.

 

OSHO

 

foto | Ronfe - Guimarães | julho'17

a porta

Guimarães fevereiro'17 30

 


Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

 

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.

 

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

 

Eu sou muito inteligente!

 

Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!

 

Vinicius de Moraes

 

foto | Guimarães | fevereiro'17

o pinheiro

foto Ilhas Cies - Vigo junho'17 09

 

Elegante talhe de verticalidade.
É a altitude.
Agreste seiva de resina.
É o perfume.
Alvas carnes de perenidade.
É o abrigo.
Verde pulmão de oxigênio.
É a saúde.
Rico leite dos pinhões.
É o alimento.
Perfil delicado e simétrico.
É a beleza.
Legião de braços erguidos.
É a solidariedade.
Galhos voltados para os céus.
É a oração.
Ó gentil pinheiro,
Formoso símbolo da minha Terra,
Heroica sentinela da Mantiqueira!

 

Pedro Paulo Filho

 

foto | Ilhas Cies - Vigo | junho'17

fontanário da saudade

Alagoa_março17_04

 

Por ele correm os tempos
todos eles diferentes
mas igualmente difíceis
Já muita sede matou
e ficou no esquecimento
Já ninguém para ele olha
em sinal de agradecimento
Nem já vê nele arte viva


Fontanário da saudade
monumento desprezado
sem direito a despedida
Há em ti uma imponência
e eu sinto a tua presença
corre em ti um fio de vida
 
 
Maria Fernanda Reis Esteves
 
 

foto | Alagoa | março'17

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