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andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

entre o luar e o arvoredo

 

foto  S. Torcato - Guimarães  fevereiro'17 27

 

 

Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo,
Tudo é não ter nem encontrar.


Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.

 

Fernando Pessoa

foto |  S. Torcato - Guimarães  | fevereiro'17
texto | in "Pessoa e Pessoas de Pessoa" - EXINOV Editora | 2010

não

 

foto Ilhas Cies - Vigo junho'17 06

 

Sou das praias batidas pelo vento,
dos campos secos a perder de vista,
dos dias que anoitecem de repente,
das noites sem manhã como saída.

 

Sou dos mares azuis que não navego,
dos caminhos de pó e erva nas bermas,
das casas velhas onde cresce o medo,
das portas que se fecham a quem chega.

 

Sou de um país de sal e solidão,
onde importa voltar a dizer não.

 

Torquato da Luz

 

foto | Ilhas Cies - Vigo | junho'17 

torre de névoa

Guimarães fevereiro'17 21

Subi ao alto, à minha torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: «Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...»

Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha torre esguia junto ao céu!...

 

Florbela Espanca

 

foto | Guimarães | fevereiro'17 
texto | in "Florbela Espanca - Sonetos" - Bertrand Editora | 2009

 

meu irmão progresso, minha irmã máquina

Alfandega da Fé_março17_03

 

 

Levei tempo a compreender a palavra Progresso. Levei tempo a compreender o segredo da minha irmã Máquina, filha, como nós, da nossa mãe terra. Aqueles que a desprezam e a caluniam são os mesmos que dela se aproveitam. Aqueles que, pelo contrário, obtiveram dela pouca coisa e só à custa de trabalho e sangue, sabem que ela é sua irmã e que é preciso libertá-la, arrancá-la às mãos dos incapazes para que se torne  nossa serva dócil e incansável.

O operário, o construtor de barragens, essas maravilhosas pirâmides do nosso tempo, lubrifica, unta e alimenta a máquina bela, precisa e séria de múltiplas engrenagens. E no seu coração como ele a ama! Um legítimo orgulho ilumina a sua fronte.

Se vou na rua e considero cada objecto na sua calma e beleza, a goteira, o puxador de cobre, a placa redonda de metal sobre a qual está escrito «Gás de Paris», sinto a alegria invadir-me diante de tanta beleza.

Cada objecto é um milagre, um fruto saboroso, trabalhado pela mão hábil de um dos meus irmãos, guiado pela inteligência e amizade. Sobre este alfinete, sobre este ticket de metro, um homem se debruçou, cheio de atenção, e lhe deu generosamente as mais belas horas ensolaradas da sua vida.

A tanto amor, como não responder pelo amor?

Cada objecto é um gesto amigo. Um sinal. Decifrai, pois, a mensagem amorosa dos objectos manufaturados. Eu gostaria, pela minha parte, de soletrar-lhes cada sílaba.

Se tudo isto sei é porque o amor ao mundo dos meus irmãos, um dia me dispersou, como às sementes pela terra. O amor me lançou à rua.

 

André Liberati

 

foto | Alfandega da Fé | março17
texto | in " Voz Consoante - Traduções de Poesia" de António Ramos Rosa - Quasi Edições | 2006

 

imaginação

 

DSC04409

 

A imaginação é magia e é arte
que nos faz inventar, sonhar e viajar.
Com imaginação podemos ir a Marte
ou ao centro da Terra, ou ao fundo do mar.

 

Com imaginação nunca estamos sozinhos.
A imaginação é um voo, um lugar
onde temos amigos, onde há outros caminhos
nos quais, sem te mexeres, podes ir passear.

 

Inventa uma cantiga, um poema, um desenho
um arco-íris, um rio por entre malmequeres;
esse lugar é teu, sem limite ou tamanho.
A esse teu lugar, só vai quem tu quiseres.

 

Rosa Lobato de Faria

 

foto | Serralves | junho'17

a velha casa

 

piódão_março17_07

 

Havia sempre no passado
o momento de grande gargalhada.
Corríamos pela casa
como duas crianças
e sacudíamos os lençóis
com nossos corpos.
Tínhamos em comum
a admiração da lua
e um certo jeito de olhar o mundo.
E mesmo hoje no passado
em que já nos encontramos distantes
ainda corremos pela casa
desabitada.
E só.

 

Heitor Ferraz

 

 

foto | Piódão | março17

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