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andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

andar por fora

à descoberta da plenitude de um instante eternizando o momento que passa

a Rua de Santa Maria

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A medieval Rua de Santa Maria é uma das mais antigas de Guimarães. O seu papel na história da cidade é da maior importância pelo facto do seu traçado ter servido como via de comunicação entre a Vila do Mosteiro e a Vila do Castelo. A rua foi, durante séculos, habitada por clérigos, nobres e gente de prestígio, como são exemplo os cónegos da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, tornando-se numa rua de elite. Como todas as ruas medievais, terá sido uma rua escura, atravancada e suja, onde os avisos de “água vai” seriam uma constante. Hoje, é uma das artérias mais bonitas e típicas do centro histórico, e nela, a par de grandes habitações – algumas brasonadas e com varandas com ferros forjados –, podemos encontrar casas simples, mas enriquecidas com belas varandas de madeira. 

 

in Guia da Cidade, Guimarães Turismo

 

 

fotos | guimarães | fevereiro'17

máscaras

 

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não é sempre que consigo
ser eu mesmo, ás vezes
sou outro, irreconhecível
zonzo de existir assim


outro
não o mesmíssimo
apesar da face
das mãos e olhos
do hálito da boca
apesar de tudo

 

outro
outro dentro de mim
um guerreiro angustiado
sem armas adequadas
de mãos atadas
herói capturado

 

Luís Edmundo Alves

 

foto | Guimarães | fevereiro'17

aqui venho depor uma palavra

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Aqui venho depor uma palavra
que alguém me segredou, mas onde e quando?

 

Eu sei apenas que alguém falava.
E eu ficava escutando.

 

Aqui venho depor um sentimento
que é silêncio, talvez.

 

Eu nada sei senão que vibra ao vento
distante e tormentosa lucidez.

 

E deixo latejar uma palavra
que não foi minha, mas vivi.

 

A vida quase que se revelava...
Onde e quando, esqueci.

 

Alphonsus de Guimaraens Filho

 

foto | Guimarães | fevereiro'17

viver

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Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

 

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

 

Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projecto de abri-la
sem haver outro lado?

 

O projecto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

 

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco’

 

foto | Guimarães | fevereiro'17

a nuvem

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Sulcas o ar de um rastro perfumoso
Que os nervos me alvoroça e tantaliza,
Quando o teu corpo musical desliza
Ao hino do teu passo harmonioso.

 

A pressão do teu lábio saboroso
Verte-me na alma um vinho que eletriza,
Que os músculos me embebe, e os nectariza,
E afrouxa-os, num delíquio langoroso.

 

E quando junto a mim passas, criança,
Revolta a crespa, luxuosa trança,
Na espádua arfando em túrbidos negrumes,

 

Naufraga-me a razão em sombra densa,
Como se houvera sobre mim suspensa
Uma nuvem de cálidos perfumes!

 

Teófilo Dias

 

 

foto | S. Torcato - Guimarães | fevereiro'17

coragem

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A palavra coragem é muito interessante. Ela vem da raiz latina cor, que significa "coração". Portanto, ser corajoso significa viver com o coração. E os fracos, somente os fracos, vivem com a cabeça; receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica. Com medo, fecham todas as janelas e portas – com teologia, conceitos, palavras, teorias – e do lado de dentro dessas portas e janelas, eles se escondem. O caminho do coração é o caminho da coragem. É viver na insegurança, é viver no amor e confiar, é enfrentar o desconhecido. É deixar o passado para trás e deixar o futuro ser. Coragem é seguir trilhas perigosas. A vida é perigosa. E só os covardes podem evitar o perigo – mas aí já estão mortos. A pessoa que está viva, realmente viva, sempre enfrentará o desconhecido. O perigo está presente, mas ela assumirá o risco. O coração está sempre pronto para enfrentar riscos; o coração é um jogador. A cabeça é um homem de negócios. Ela sempre calcula – ela é astuta. O coração nunca calcula nada.


Osho

 

foto | S. Torcato - Guimarães | fevereiro'17

 

é como as obras de S. Torcato

 

190 anos depois de lançada a primeira pedra do Santuário de São Torcato, em Guimarães, as obras que se arrastaram ao longo de quase de dois séculos ficaram finalmente concluídas. Esta longa demora na construção do mosteiro deu origem à expressão "é como as obras de S. Torcato".

 

 

foto | S. Torcato - Guimarães | fevereiro'17

amar-te é vir de longe

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Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atrás de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sob a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos lá,
a olho nu, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber água numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam mãos e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
já fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atrás do tojo,
e abaixo dos calções as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta já feita para abrir,
e encontrar o lar ou música lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
- meu nome exacto e pão
no chão das alegrias.

 

Pedro Tamen

 

foto | S. Torcato - Guimarães | fevereiro'17

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